Sexta-feira, 24 de Setembro de 2021

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Brasil

Publicada em 22/03/18 às 08:01h - 1502 visualizações
Pearl Jam transforma o Maracanã em um pedaço de Seattle
Banda tocou grandes sucessos, apresentou uma nova canção e fez discurso em favor da igualdade entre homens e mulheres.

Rádio BangeR


Pearl Jam no Rio  (Foto: G1/Marcos Serra Lima)

O dedilhado em ré maior da guitarra e co-fundador de Stone Gossard seguido pelos sussuros de Eddie Vedder dedicados ao pai que ele pouco conheceu - tudo isso emoldurado pela profunda luz azul que tomou conta do palco montado em uma das extremidades do campo do Maracanã.

Foram com esses elementos, e a execução de "Release" - presente no álbum de estreia da banda, "Ten", de 1991 -, que o Pearl Jam deu início à sua quarta passagem pelo Rio de Janeiro. Eram 21h28 desta quarta-feira (21).

Logo em seguida, foi a vez de "Low light", canção escrita pelo baixista e também co-fundador Jeff Ament e décima faixa do álbum "Yield", de 1998.

A composição abriu caminho para "Elderly woman behind the counter in a small town" - obra do segundo álbum da banda ("Versus", de 1993) que trata do reencontro, após muitos anos, de duas pessoas que se amaram na juventude e que, ao cruzarem seus caminhos mais uma vez, estão em situações bem diferentes: ela jamais deixou a pequena cidade onde se encontraram, ele conheceu o mundo e agora está de volta. O sentimento dos dois, no entanto, permanece o mesmo.

A alternância entre potência e lirismo de "Don't go" moveu a apresentação para a frente. Na sequência, foi a vez "All night", composição nervosa que abre o álbum duplo de 2003 "Lost dogs" - compilação de canções gravadas mas, até aquele momento, não lançadas pela banda.

O Pearl Jam retorna mais uma vez a "Versus", agora com "Animal", canção cuja letra reflete o estado de guerra permanente entre a banda e sua então gravadora durante as sessões de gravação do álbum.

Ao fim da performance, Eddie Vedder se dirige ao público pela primeira vez - a exemplo das ocasiões anteriores em que esteve por aqui, faz um esforço honesto, e bem recebido pelo público, para se expressar em português.

"Uma garrafa grande para um grande show", ele disse enquanto segurava uma grande garrafa de vinho - a ingestão da bebida [e um hábito que há anos mantém durante os shows.

"Estamos felizes por voltarmos ao Maracanã. Sentimos saudades. Adoramos o Brasil e também adoramos tocar para vocês", afirmou o vocalista, com dificuldade especial e ao mesmo tempo simpática para conseguir proncunciar o nome do estádio.

Bastaram essas duas frases para o público de 50 mil pessoas ficar nas mãos da banda.

Em seguida vieram "Given to fly" - cuja apresentação traz boas lembranças para o público carioca. No show de 2015, também no Maracanã, a banda ilustrou a execução dessa música com imagens aéreas do Rio de Janeiro -, a menos conhecida "In hiding", também de "Yield", e o arrasa-quarteirão "Jeremy".

Esta última tem os versos baseados na tragédia do adolescente Jeremy Wade Delle - aos 15 anos de idade, no dia 8 de janeiro de 1991, ele cometeu suicídio dentro da sala de aula e em frente aos colegas da escola. Na época, Vedder leu sobre o ocorrido em um pequeno artigo de jornal e, a partir dos fatos, decidiu escrever a canção.

"Corduroy" traz, enfim, uma faixa de "Vitology" - terceiro álbum da banda, lançado em 1994 - para o show. Ela abre o caminho para uma das composições mais populares do grupo: "Even flow", sucesso do primeiro álbum, no qual os músicos discorrem sobre as situações vividas pelos moradores de rua.

A frase inicial da canção - "Freezin', rest his head on a pillow made of concrete" / "Congelado, ele descansa sua cabeça sobre um travesseiro feito de concreto" -, tornou-se uma das mais conhecidas já escritas por Vedder.

Aqui cabe uma observação: a extensa sessão instrumental ao fim da canção talvez tenha sido o único momento em todo o show no qual o público demonstrou certo enfado - muito embora a atenção tenha sido mantida.

Vieram "Immortality", antiga frequentadora das programações das agora falecidas rádios de rock do Rio de Janeiro, e ""Wishlist" - esta última dedicada ao Red Hot Chilli Peppers. A plateia entenderia o motivo dessa dedicatória um pouco mais à frente.

A banda entrou, então, no álbum "Lightning bolt", o mais recente, de 2013, com duas canções em sequência.A primeira foi a furiosa "Mind your manners", que nas palavras do guitarrista Mike McCready é o momento no qual o Pearl Jam mais se aproximou do Dead Kenndys, tanto na virulência do som quanto na letra que faz uma crítica direta à religião organizada.

Em seguida, a própria "Lightning bolt", canção que mostra de forma escancarada o quanto a banda bebeu na fonte chamada The Who - inúmeras vezes citada por Vedder como sua maior influência. A própósito, o grupo de Pete Townshend, Roger Daltrey, Keith Moon e John Entwistle voltaria a aparecer no show mais uma vez.

A beleza melancólica de "Garden" precedeu "Can't deny me", que fará parte do novo álbum, o décimo-primeiro da carreira do grupo, a ser lançado ainda este ano. Para apresentar essa crítica direta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Vedder chamou ao palco Chad Smith, baterista do Red Hot Chilli Peppers.

Detalhe importante - ele jamais havia ouvido e muito menos executado a canção. Talvez por isso, tenha se limitado a tocar o cowbell, pequeno instrumento acústico .

O tema da canção foi a deixa para Vedder voltar a se dirigir ao público:

"Não é bom ter um líder ruim. O povo deve ser o líder", afirmou, pouco antes de colocar, por poucos instantes, uma máscara de Donald Trump.

A apresentação de "Porch", outro sucesso do primeiro álbum, em uma versão com solo prolongado executado por Mike McCready, encerrou a primeira parte da apresentação.

Mulheres

Em menos de 10 minutos, a banda retornou ao palco para apresentar, em uma formação semiacústica, versão enxuta de "Sleeping".

Vedder elogiou o público pelo bom comportamento e pela ausência de brigas ou confusões durante a aparesentação:

"Segurança em primeiro lugar", ele disse.

Ficou evidente que as feridas abertas no dia 30 de junho de 2000 ainda estão abertas - e é muito provável que jamais fechem totalmente. Naquele dia, nove pessoas morreram esmagadas durante um show do Pearl Jam no Festival de Roskilde, na Dinamarca.

A experiência foi tão traumática, que a banda passou mais de seis anos sem se apresentar em festivais e, por muito pouco, não encerrou as atividades.

Seguiu-se "Inside job", do álbum "Pearl Jam", de 2008, e "Daughter", uma das mais conhecidas da banda e também uma das preferidas do público brasileiro - durante sua execução, mais uma vez a plateia voltou a entoar o coro de "ÔÔÔ" cantado por Eddie Vedder na primeira passagem da banda pela cidade, em 2005.

Pouco depois, foi a vez de "Do the evolution" levantar o público no Maracanã. A crítica ferrenha feita pela banda ao mau uso da tecnologia e a arrogância que decorre dessa abordagem ficou marcada na mente do público muito por conta do clipe da canção, animado pelo desenhista Todd McFarlane, conhecido por revigorar os quadrinhos do Homem Aranha na década de 1990 e também por criar o personagem Spawn.

Chegou, então, o momento de "Black". Uma das principais canções da banda, a composição - em resumo, um lamento triste e sofrido de um homem que perdeu a mulher que amava - foi acompanhado em coro pela plateia.

Durante a frase "I know someday you'll have a beautiful life / I know you'll be a star / In somebody else's sky / But why can't it be mine?" - "Eu sei que você terá uma bela vida / Eu sei que você será uma estrela / No céu de outra pessoa / Por que não pôde ser no meu?", bastava olhar ao redor para encontrar algumas pessoas chorando.

Mais uma vez, Vedder se dirigiu ao público. Desta vez, para mandar um recado bastante específico:

"A próxima canção é para todas as mulheres fortes de nossas vidas. Mães, filhas, irmãs e namoradas. Só os homens fracos não apoiam as mulheres. Esta música é para os homens que são fortes o bastante e que ajudam na luta pela igualdade".

Com os corações femininos no Maracanã conquistados, Vedder tenta, por três vezes, iniciar "Living here", do Who. Depois de um longo gole na garrafa de vinho, enfim consegue.

A pesada e cadenciada "Blood" prepara o terreno para a sessão de catarse coletiva que chega com "Better man" e "Alive".

O hino "Rockin' in the free world", de Neil Young - com quem a banda gravou o álbum "Mirror Ball", em 1995 - e a bela "Yellow ledbetter" enfim encerram a apresentação, de cerca de duas horas e meia.

Grunge e Chris Cornell

O Pearl Jam nasceu dos escombros de duas bandas seminais do movimento que viria a ser chamado de Grunge, surgido no meio dos anos 1980 na cidade de Seattle, estado de Washington, nos Estados Unidos - o Green River, de onde também nasceria o Mudhoney, e o Mother Love Bone, grupo cujas atividades chegaram ao fim de maneira precoce por conta da morte do vocalista Andrew Wood por overdose de heroína.

Ali também nasceu o Soundgarden, cujo baterista, Matt Cameron, tem sido o responsável pelas baquetas do Pearl Jam nos últimos 20 anos. Aliás, ao longo de todo o show desta quarta-feira, ele usou uma camisa com uma ilustração alusiva ao vocalista Chris Cornell - vocalista do Soundgarden e amigo dos integrantes do Pearl Jam, com quem formou o projeto Temple of the Dog.

De maneira improvável até mesmo para seus membros, uma vez que o Nirvana era o principal nome daquela cena, o Pearl Jam é a mais longeva - são 28 anos de história - e bem-sucedida banda do movimento.

E na noite desta quarta-feira, o grupo transformou o terreno localizado entre as avenidas Maracanã e Radial Oeste em um pedaço de Seattle.


Fonte: G1




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